Ernesto Che Guevara foi um dos maiores sonhadores da história recente do mundo. Embora seus ideais de vida pareçam muito românticos aos olhos de um mundo hoje globalizado, Che se transformou na imagem viva de um grande sonhador, ícone na história das revoluções do século XX e num exemplo de coerência e ideal político. Sua morte perpetuou a existência de um mito, até hoje símbolo de resistência para os países latino-americanos, mas um mito real, possível e capaz de transformar o mundo. Depois de sua morte nunca mais se ouviu falar de um lutador com igual força. Munido de sonhos e sede de justiça, Che enfrentou os poderosos da América, mas encarou, sobretudo, a fome, a doença e a falta de pespectivas que assolam a vida dos americanos do sul e do centro.Foi na cidade de Rosário, Argentina, no dia 14 de junho de 1928 que nasceu Ernesto Che Guevara, primeiro dos cincos filhos do casal Ernesto Lynch e Celia de la Serna y Llosa, esta a principal responsável pela sua formação porque, mesmo sendo católica, mantinha em casa um ambiente de esquerda e sempre estava cercada por mulheres politizadas. Che estudou grande parte do ensino fundamental em casa com a própria mãe e, desde muito pequeno, sofria com as crises de asma, razão pela qual sua família se mudou para as serras de Córdoba, quando ele tinha 12 anos. Morou próximo a uma favela e, embora a discriminação para com os mais pobres fosse comum à classe média argentina, Che não se importou com o fato e fez várias amizades com os habitantes da favela.
Na biblioteca de sua casa (com cerca de 3.000 livros) havia obras de esquerdistas como Marx, Engels e Lenin, com os quais ele se familiarizou em sua adolescência. Em 1947, entrou na Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires, motivado em ajudar os doentes de lepra, além da razão de sua doença (a asma). Em 1952, realizou uma longa jornada pela América do Sul com o melhor amigo, Alberto Granado, percorrendo 10.000 km em uma moto Norton 500, apelidada de 'La Poderosa' (aventura narrada em filme em 2006). Analisaram a realidade com olho crítico e pensamento profundo pelos oito meses dessa viagem, que marcou a ruptura de Guevara com os laços nacionalistas e dela se originou um diário. Aliás, escrever diários tornou-se um hábito para o revolucionário.
No Peru, trabalhou com leprosos e resolveu se tornar um especialista no tratamento da doença. Che saiu dessa viagem chocado com a pobreza e a injustiça social que encontrou ao longo do caminho e se identificou com a luta dos camponeses por uma vida melhor. Mais tarde, voltou à Argentina onde completou seus estudos em medicina. Foi convocado para o exército, porém, no momento estava incompatibilizado com a ideologia peronista. Não admitia ter de defender um governo autoritário. Determinado em não apoiar e servir ao exército no dia da inspeção médica, tomou um banho gelado antes de sair de casa e na hora do exame, como ele mesmo previa, teve um ataque de asma. Foi considerado incapaz de servir ao exército e acabou sendo dispensado.
Em 1953 viajou para a Bolívia e depois seguiu para Guatemala com seu novo amigo Ricardo Rojo. Foi lá que Guevara conheceu sua futura esposa, a peruana Hilda Gadea Acosta e Ñico Lopez. Nesta época, conheceu Arbenz Guzmán, o presidente esquerdista guatamalteco que comandava uma ousada reforma agrária, que tirava terras improdutivas de empresas americanas e as concedia aos camponeses pobres. Os EUA, inconformados com esta reforma, planejou um golpe bem sucedido colocando no governo uma ditadura militar manipulada pelos yankees. Che, inconformado com a facilidade norte-americana de dominar o país e com a apatia dos guatemaltecos, se convenceu da necessidade de tomar a iniciativa contra o cruel imperialismo.
Com o clima tenso na Guatemala e perseguido pela ditadura e correndo até risco de vida, Che foi para o México. No México, passou a lecionar em uma universidade e trabalhar no Hospital Geral da Cidade do México, onde reencontrou Ñico Lopez, que o levou para conhecer Raúl Castro. Raúl, que se encontrava refugiado no México após a fracassada revolução em Cuba em 1953, se tornou rapidamente amigo de Che. Mais tarde, Raúl apresentou Che a seu irmão mais velho Fidel Castro que também tornou-se grande amigo de Che. Tiveram a famosa conversa de uma noite inteira onde debateram sobre política mundial e, ao final, estava acertada a participação de Che no grupo revolucionário que tentaria tomar o poder em Cuba.
A partir desse momento, os dois começaram a treinar táticas de guerrilha e operações de fuga e ataque. Em 25 de novembro de 1956, os revolucionários desembarcaram em Cuba e se refugiaram na Sierra Maestra, de onde comandaram o exército rebelde na bem-sucedida guerrilha que derrubou o governo de Fulgêncio Batista. Depois da vitória, em 1959, Che tornou-se cidadão cubano e virou o segundo homem mais poderoso de Cuba, sendo apontado como o responsável pela adesão de Fidel Castro ao bloco soviético e pelo confronto do novo governo com os Estados Unidos. Che sonhava em levar o comunismo à toda a América Latina e acreditava apaixonadamente na necessidade do apoio cubano aos movimentos guerrilheiros da região e também da África.
Da revolução em Cuba até sua morte, amargou três mal-sucedidas expedições guerrilheiras. A primeira na Argentina, em 1964, quando seu grupo foi descoberto e a maioria morta ou capturada. A segunda - um ano depois de fugir da Argentina - no antigo Congo Belga, mais tarde Zaire e atualmente República Democrática do Congo. Precisou se disfarçar após estes fracassos. Sem a barba e a boina tradicionais que o marcaram para sempre e disfarçado de economista uruguaio, Che Guevara entrou na Bolívia em novembro de 1966. A ele se juntaram 50 guerrilheiros cubanos, bolivianos, argentinos e peruanos, numa base num deserto do Sudeste do país. Seu plano era treinar guerrilheiros de vários países para começar uma revolução continental.
Che Guevara, no entanto, foi capturado em 8 de outubro de 1967. Passou a noite numa escola de La Higuera, a 50 quilômetros de Vallegrande, e, no dia seguinte (9 de outubro), por ordem do presidente da Bolívia, general René Barrientos, foi executado com nove tiros nesta mesma escola na aldeia de La Higuera, no centro-sul da Bolívia pelos rangers do Exército boliviano, treinados pelos Estados Unidos. Muitos boatos cercaram a execução de Che Guevara, levantarando dúvidas, inclusive, sobre a identidade do guerrilheiro morto na selva boliviana. A confusão culminou no desaparecimento dos seus restos mortais, encontrados apenas no ano de 1997, quando o mundo recordava os trinta anos de sua morte. Os restos mortais de Che foram encontrados sob o terreno do aeroporto de Vallegrande. O corpo estava sem as mãos - amputadas para reconhecimento, poucos dias depois da morte e contrabandeadas para Cuba. Em 17 de outubro de 1997, Ernesto Che Guevara foi enterrado com pompas na cidade cubana de Santa Clara (onde liderou uma batalha decisiva para a derrubada de Batista), com a presença da sua família e de Fidel Castro. Sua morte, aos 39 anos, interrompeu o sonho de estender a Revolução Cubana à América Latina e ao mundo, mas não impediu que seus ideais de liberdade continuassem a gozar de popularidade entre as esquerdas de todo o mundo, grandes sonhadores do ideal de um mundo melhor e mais justo.| < Anterior | Próximo > |
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