Comunidade Ícaros - Gente Que Faz Diferente - Chacrinha - Velho guerreiro das jovens tardes de sonhos
Ter, 07 de Fevereiro de 2012
Seu Email Raisites.com e Sonhadores.com

Grandes Nomes

Chacrinha - Velho guerreiro das jovens tardes de sonhosJosé Abelardo Barbosa de Medeiros nasceu na pequena cidade de Surubim, em Pernambuco no dia 30 de setebro de 1917. Filho de um comerciante e uma dona de casa, formou-se médico, esteve à beira da morte na juventude, tentou ir para a Alemanha de navio e acabou por acaso na então capital federal Rio de Janeiro. Tentou ser locutor de rádio da Rádio Vera Cruz, da Tupi e da Rádio Clube Fluminense, mas seu forte sotaque nordestino não combinou bem com a locução comercial. Mas continuou tentando sucesso nas rádios, porém Insatisfeito mais uma vez com o convecionismo das rádios, resolveu vender sonhos: pediu à direção da Rádio Clube de Niterói onde atuava na época para fazer um programa sobre música carnavalesca num horário avançado da noite. A cúpula da rádio topou e Abelardo Barbosa estreou seu "O Rei Momo na Chacrinha" - este nome porque esta rádio de Niterói funcionava numa chácara próxima ao Cassino de Icaraí. A partir daí, o nome Chacrinha apareceu e se firmou para sempre no cenário da comunicação do Brasil. Chacrinha foi um grande comunicador de rádio e começou a aparecer de forma mais consistente quando mudou o nome de seu programa para "O Cassino da Chacrinha". Num programa nada convencional para a época, Abelardo simulava entrevistas com celebridades, fazia os ouvintes imaginarem o tal cassino, descrevendo festas badaladas no mesmo. Tudo ilusão. Abelardo trabalhava praticamente sozinho com uma parafernália incrível para produzir sons os mais diversos, usando inclusive animais, como o galo que, de fato, existia na chácara da rádio. O Cassino da Chacrinha, neste esquema improvisado, durou do final do carnaval de 1942 até o ano de 1955, quando Abelardo decidiu dar imagens aos seus sonhos. Foi para a televisão. Em 1956, na Rede Tupi do Rio, passou a apresentar o programa "Rancho Alegre" de forma definitiva, largando,assim, o rádio. Foi contratado por quase todas as emissoras de televisão do Brasil e, em 1959, já tinha o programa mais popular da tv: a "Discoteca do Chacrinha".

Chacrinha - Velho guerreiro das jovens tardes de sonhos

O menino que saiu de Surubim aos 10 anos para Campina Grande, na Paraíba e de lá foi para o Recife, aos 17, não imaginava que seus sonhos o levassem tão longe. Mas levou. Não só ele como todos aqueles que com ele conviveu, trabalhou e participou de seus programas. Em todas as emissoras que trabalhou (Tupi Rio  e TV Rio - de 1956 a 1970, Rede Globo - 1970 a 1978 e de 1982 até morrer, em 1988, Bandeirantes - de 1978 a 1981) sempre usou para nomear seus programas a palavra chacrinha (Buzina do Chacrinha, Discoteca do Chacrinha, Cassino do Chacrinha), como se fosse eternamente grato àquela pequena chácara da Rádio Clube de Niterói. Aliás sobre fórmulas e nomes tão parecidos, Abelardo fraseou celebramente: "Na televisão, nada se cria, tudo se copia", se referindo não somente a si, mas a tv de forma geral.

Chacrinha - Velho guerreiro das jovens tardes de sonhos

Mas esta tv que Chacrinha criou - ou copiou - fez de forma perfeita, a despeito de tudo parecer um grande caos. Usando uma indefectível buzina num programa de calouros, atirando bacalhaus e abacaxis para a platéia, usando roupas extremamente espalhafatosas  (dizem muitos: Chacrinha foi o maior palhaço do Brasil) e soltando bordões do tipo "Eu vim para confundir, não para explicar" e "quem não se comunica, se trumbica" (isso sem contar os espantosos nomes que dava a suas ballarinas, melhor conhecidas como Chacretes - aliás, usar moças dançando nos seus programas foi uma inovação), este comunicador iningualável mudou tudo que se fazia na televisão e contribuiu para a ascensão de grandes nomes como Roberto Carlos, Raul Seixas, Elba Ramalho, entre tantos.

Chacrinha - Velho guerreiro das jovens tardes de sonhos

Os anos 80 no Brasil, musicalmente falando, não teriam sido o que foi se não houvesse Chacrinha na televisão. Sábado à tarde na Rede Globo era a alegria de toda a nação - dos seus milhões de expectadores aos artistas que se apresentavam no programa. No auditório do Velho Guerreiro - chamado assim desde os anos 70 por causa de uma homenagem feita a ele por Gilberto Gil na música "Aquele Abraço" - foram consagrados Os Paralamas do Sucesso, Titâs, Sidney Magal, RPM, Byafra, Legião Urbana, Alceu Valença e muitos outros nomes que consolidaram suas carreiras com o apoio do Chacrinha.

Chacrinha - Velho guerreiro das jovens tardes de sonhos

Mas Chacrinha não foi rei do rádio e da televisão apenas. Fez cinema também . Participou de filmes brasileiros dos anos 60 e 70, geralmente interpretando ele mesmo. No filme "Na Onda do Iê-Iê-Iê", de 1966, ele encenou seu programa de calouros "A Hora da Buzina", exibido na TV Excelsior. Dentre os calouros, estavam o cantor popular Paulo Sérgio - nome que Chacrinha ajudou a consolidar no Brasil. Também foi tema de uma escola de samba: em 1987, a escola Império Serrano o homenageou com o samba-enredo "Com a boca no mundo - Quem não se comunica se trumbica". Foi a única vez que Chacrinha - apaixonado pela Portela - desfilou em uma escola de samba, embora amasse o estilo musical e fosse apaixonado por marchinhas - ele todo ano lançava uma ou mais em seu programa.

Chacrinha - Velho guerreiro das jovens tardes de sonhos

Com o passar do tempo, Chacrinha passou a ter problemas de saúde que o afastou temporariamente de seu programa. Com câncer no pulmão e já com 70 anos, Abelardo Barbosa faleceu no Rio de Janeiro na noite de 30 de junho de 1988, vitimado por insuficiência respiratória e infarto do miocárdio. Mas permaneceu vivo o mito. Ninguém conseguiu acreditar no ocaso do Chacrinha. Foi uma comoção nacional. Velado no hall principal da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, Chacrinha recebeu o adeus de 30 mil pessoas. Foi enterrado no Cemitéro São João Batista, no bairro de Botafogo. O Velho Guerreiro, anjo do bem, se foi como um vencedor. Trabalhou duro, construiu uma família feliz e ensinou algo fundamental a todas as pessoas: acreditar nos sonhos e procurar ser feliz, mesmo com todas as dificuldades da vida.