Comunidade Ícaros - Gente Que Faz Diferente - Arthur Bispo do Rosário - O louco tinha razão: arte
Ter, 07 de Fevereiro de 2012
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Arthur Bispo do Rosário - O louco tinha razão: arteSem nunca esculpir nem usar tintas, nem desenhar, nem fotografar, mas esmerado em sua busca pelo entendimento do mundo, Arthur Bispo do Rosário, considerado esquizofrênico-paranóico, criou arte do lixo do hospital psiquiátrico em que viveu, de sucatas e trapos de panos de outros internos. Genuíno e único no que fez, Arthur hoje é uma unanimidade internacional quanto à sua arte. Segundo Bispo, Deus lhe havia pedido que "reconstruísse o universo" e "registrasse Sua passagem aqui na terra". Durante a maior parte de sua vida - e grande parte desta recluso em uma solitária na Colônia Juliano Moreira - não fez outra coisa senão cuidar dos "desejos de Deus". Desse modo, Bispo produziu arte poética e vergitinosa "para ofertar ao Todo-Poderoso no dia do Juízo Final". O surgimento de Bispo do Rosário no mundo já é um de seus mistérios: com dois registros de nascimento - um na Light, onde foi empregado entre 1933 e 1937, seu nascimento consta como 16 de março de 1911 e outro nos registros da Marinha de Guerra do Brasil, onde serviu entre 1925 e 1933, a data é 14 de maio de 1909.

Arthur Bispo do Rosário - O louco tinha razão: arteMas veio ao mundo - e isto é certo - sob o céu de Japaratuba, estado de Sergipe. No ano de 1925,  já no Rio de Janeiro, ingressou na Escola de Aprendizes da Marinha. Entre 1926 e 1933 foi marinheiro e pugilista e consta que foi campeão brasileiro e sul-americano de boxe pela Marinha, na categoria peso leve. A partir de 1933, passou a trabalhar como lavador de bonde e borracheiro na Light, mas um acidente de trabalho o levou a mover uma ação judicial contra a empresa, da qual se desligou em 1937. Nesta situação, conheceu uma pessoa fundamental em sua vida: o advogado Humberto Leone, que além de o defender na ação contra a Light, levou-o para trabalhar em sua casa, embora Arthur tenha se recusado sempre em receber salário pelos seus serviços.
Arthur Bispo do Rosário - O louco tinha razão: arteVivendo ainda na casa de Humberto Leone, no dia 22 de dezembro do ano de 1938, Arthur garantiu ter visto Cristo descer no quintal com sete anjos azuis. Esta visão, modificou a vida de Arthur Bispo do Rosário para sempre. Contou ao patrão sobre sua visão, declarou-se Jesus Cristo, peregrinou por várias igrejas do Rio e subiu ao Mosteiro São Bento, onde se declarou um enviado de Deus, encarregado de julgar os vivos e os mortos. Foi detido e fichado como negro indigente e internado no Hospital dos Alienados na Praia Vermelha. No ano seguinte - 1939 - foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, instituição criada no começo do século XX para abrigar negros, pobres e alcóolatras, considerados anormais ou indesejáveis.
Arthur Bispo do Rosário - O louco tinha razão: arteArthur Bispo do Rosário foi diagnosticado como esquizofrênico-paranóico. Passou a maior parte de sua vida trancafiado num quarto (não apenas porque foi isolado por agressões a outros internos, mas porque quis se trancar sozinho), tecendo seus sonhos a pedido da "voz" que o fazia trabalhar. No isolamento, Arthur desenvolveu grande sensibilidade artística. Começou sua produção no mesmo ano em que chegou a Juliano Moreira e não parou mais de produzir. Bispo foi descoberto como artista ainda em vida, mas jamais quis fazer uma exposição. "Não faço isto para os homens, mas para Deus" - disse,  definitivamente se negando a apresentar sua obra em público. A arte de Bispo, considerada vanguardista, foi comparada à de Marcel Duchamp e é considerada arte contemporânea de referência no Brasil.
Arthur Bispo do Rosário - O louco tinha razão: arteO trunfo da arte de Arthur Bispo do Rosário - apresentada ao mundo pelo crítico  Frederico de Morais e cuja produção beira mil objetos - foi mesmo fazê-la surgir dos restos da sociedade de consumo que o renegou. Bispo recolheu lixo e devolveu arte como se desse amor aos que o cercearam do mesmo. Não se rendeu à sociedade - para qual voltou algumas vezes, não deixando que a "lucidez" do mundo afetasse a sua arte (produziu muito no sótão da clínica pedriátrica em que trabalhou nos anos 60) - e não se curvou à instituição manicomial - que o abrigou diversas vezes - se recusando a receber tratamentos e tentando modificá-la, redesenhando-a, quando transformava o lixo da instituição em objetos de arte.
Arthur Bispo do Rosário - O louco tinha razão: arteArthur Bispo do Rosário faleceu no Rio de Janeiro em 5 de julho de 1989, mas sua obra continua sendo discutida até agora. Os limites entre a insanidade e a arte é uma pauta recorrente quando se discute a obra de Bispo. Hoje, considerado mais gênio que louco, o artista é nome de museu (Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea - que funciona na desativada Colônia Juliano Moreira), foi tema de filmes ("O Prisioneiro da Passagem", curta de Hugo Denizart, realizado em 1982 e "O Bispo do Rosário: Arquelogias Emocionais", média-metragem de Helena Rocha e Miguel Przewodowski, de 1993) e de livros, como "Região dos Desejos", do mesmo fotógrafo autor do curta-metragem, Hugo Denizart,  "Artur Bispo do Rosário: O Senhor do Labirinto", de Luciana Hidalgo e "Arthur Bispo do Rosário - Século 20", organizado por Wilson Lázaro.