Guti Fraga é um destes sonhadores dado como louco. Nascido em Alto Graças, em Mato Grosso, ele veio para o Rio de Janeiro em 1977. Antes, passou dois anos na Argentina, onde estudou agronomia e medicina até o golpe militar de 1976. “Era preso todo dia porque tinha cabelo comprido. "Cortei duas vezes, mas, na terceira prisão, preferi voltar ao Brasil”, conta. No início da década de 80, trabalhava como ator e diretor de cena de Marília Pêra, tinha dinheiro para jantar em restaurantes caros e vivia na ponte-aérea cultural entre Rio e São Paulo. Em 1986, no entanto, largou tudo em nome do sonho de montar um grupo de teatro no Morro do Vidigal, zona sul carioca, onde já morava desde que chegou na Cidade Maravilhosa. Trocou os restaurantes pelo prato feito dos botequins e o táxi pela espera nos pontos de ônibus, mas jamais se arrependeu.

E Guti realizou seu sonho. Juntamente com o cenógrafo Fernando Mello da Costa, o iluminador Fred Pinheiro, o jornalista e dramaturgo Luiz Paulo Corrêa e Castro e a professora Zezé Silva, fundou o grupo Nós do Morro que tem hoje cerca de 300 alunos e reconhecimento por ter formado atores como Jonathan Haagensen, de "Cidade de Deus", Mary Sheila, que atuou com destaque na minissérie "A Casa das Sete Mulheres", e Roberta Rodrigues, que já fez muitas novelas, entre elas "Mulheres Apaixonadas", de Manoel Carlos.
Mas o início, claro, foi muito difícil: Guti recrutou 16 alunos e saiu pela vizinhança distribuindo convites para as peças do grupo, encenadas num espaço cedido por um padre da área. As palavras de Guti : “Trabalhamos o resgate da educação, do obrigado e do por favor, que há muito vêm se perdendo, independente de classe social” encerra bem o propósito de seus sonhos. Guti não acredita que tira jovens do tráfico. “Dou oportunidade a quem poderia está fazendo mil coisas, além do tráfico, mas existe esse estereótipo”, diz ele, que aposta na qualidade para fugir do paternalismo.

Em 2002, o Grupo Nós do Morro tornou-se referência internacional graças à participação de seus atores no sucesso de bilheteria "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles e Kátia Lund, e, desde então, vem revelando talentos mundo afora. Thiago Martins, Babu Santana, Roberta Rodrigues, Jonathan Haagensen e Mary Sheyla são apenas algumas das estrelas que hoje brilham nas telinhas e nos palcos de todo canto. Mas a trajetória dessa fábrica de sonhos e visibilidades nem sempre trilhou calçadas da fama. Ela foi escrita sob muita transpiração e todo os pés na realidade.

Desde 2001, o patrocínio da Petrobras financia não apenas a formação técnica e artística, mas também o corpo administrativo da empresa com cerca de 30 funcionários, as montagens profissionais realizadas pelo Grupo, o Núcleo Audiovisual e as células multiplicadoras fundadas em Nova Iguaçu, Itaocara, Japeri e Saquarema. Em seus 24 anos de trabalho, o Grupo caracterizou-se por intercalar encenações de textos clássicos da dramaturgia nacional com trabalhos de pesquisa de uma linguagem local, representando questões cotidianas dos moradores da comunidade, investindo na formação de plateia e formando atores, técnicos e, sobretudo, cidadãos.





